domingo, 4 de dezembro de 2016

Every Time We Say Goodbye



Every Time We Say Goodbye é um clássico de Cole Porter, visitado e revisitado até à exaustão por todos, entre a pop e o Jazz. De entre o Jazz (…) ele foi cantado e tocado por Ella Fizgerald, Chet Baker, Ray Charles, Diana Krall, Fred Hersch, Keith Jarrett, Brad Mehldau, Lee Konitz, Sonny Rollins, Nina Simone, Sarah Vaughan; mas talvez que a sua mais notável interpretação lhe tenha sido oferecida por John Coltrane em My Favorite Things de 1961.

O que Every Time We Say Goodbye de John Coltrane – que tocava com McCoy Tyner no piano, Elvin Jones na bateria e Steve Davis no contrabaixo (Steve Davis abandonaria o grupo de Coltrane logo depois, sendo substituído na tournée que o grupo fez no ano seguinte na Europa por Jimmy Garrison) – tem de singular é que é neste tema que Trane se estreia num saxofone soprano que Miles Davis lhe tinha oferecido algum tempo antes. E que estreia! – depois da versão de Coltrane, todas as outras versões nos soam vulgares.

My Favorite Things conta ainda com três outras composições; o tema que dá o nome ao álbum, de  Oscar Hammerstein II e Richard Rodgers (o tema de The Sound of Music – Música no coração), e dois temas de George Gershwin – Summertime (de Porgy & Bess) e But Not for Me. Em todas elas Coltrane toca saxofone tenor, mas em versão posterior do álbum foram acrescentadas duas bonus tracks retiradas do single editado na altura, de My Favorite Things, Coltrane também toca soprano. My Favorite Things foi o álbum de John Coltrane mais vendido de sempre.   


A ouvir (banda sonora para Every Time We Say Goodbye):
My Favorite Things, John Coltrane, 1961


Every Time We Say Goodbye - Histórias de Jazz (8)



Não sei se já vos aconteceu acordar no corpo de outra pessoa: comigo está sempre a acontecer. Sempre me aconteceu, desde que me recordo. Tenho algumas memórias difusas da infância, mas recordo-me que em miúdo me acontecia acordar no corpo de outras crianças, o que me provocava uma enorme perturbação. Acordava e não sabia onde estava, vivia por algum tempo nessoutra vida até que regressava. Acordava é metáfora, porque por vezes bastava-me um piscar de olhos ou abrir uma porta para um novo mundo — uma nova vida — se me abrir. Mas de certa forma eu não sabia quem era; qual era a minha vida verdadeira — se é que ela existia; se é que uma vida predominava sobre as outras, porque eu me identificava com essas outras vidas. Ao fim de algum tempo as memórias esvaíam-se e eu passava a viver inteiramente essas vidas nesses corpos, mas alguma coisa ficava dessas vidas, imagens, cheiros, sabores, por vezes apenas emoções. Como consequência destes episódios fui ganhando empatia com alguns outros colegas, porque os compreendia; quero dizer, porque por algum tempo eu tinha sido realmente eles.
Hoje convivo com essa realidade perturbante, mas na minha infância esse momento fazia-me cair ou mesmo por vezes entrar em convulsão.
Podem compreender que eu não saiba hoje dizer quem realmente sou, mas também eu nunca fui uma criança muito popular e alguns dos meus pais tenderam a isolar-me e a proteger-me. Nem todos, porque alguns entendiam este meu desassossego como uma forma de loucura, ou distúrbio de personalidade.
Alguns dos meus eus repetiam-se, outros terão desaparecido na adolescência, mas essa adolescência também não foi fácil; enquanto eu antecipava o comportamento de alguns, sofria ou alegrava-me com o crescimento de outros: sentia.
E aprendia também: nenhum corpo é igual, nenhuma vida é igual, e algum do conhecimento de outras vidas permanecia para além do corpo para onde eu era transferido. Eu era magro, eu era gordo, era filho de professores, vivia num bairro da periferia e não tinha dinheiro, era mais ou menos bonito, gaguejava ou era eloquente, tinha namoradas ou não, tinha mais ou menos amigos, nalgumas vidas tinha jeito para o futebol, noutras tentava jogar e era um verdadeiro nabo, mas sabia coisas e diria que tinha uma mesma consciência.
Diria que esta minha empatia tinha tantas virtudes quanto se revelavam irritantes para muitos dos meus colegas; mas as minhas afinidades transformavam-se amiúde em cumplicidades que não sabíamos explicar, quando ocasionalmente eu era capaz de ver o mundo à minha volta com outros olhos.
Cresci. Vivi muitas vidas, tive uma vida cheia: estudei, trabalhei, amei, sofri, tive filhos. Fui empregado de escritório, fui professor, fui agricultor, fui cozinheiro, fui empregado de café, fui músico, estive desempregado; tive amigos, tive inimigos, conheci mulheres, namorei, casei, vivi sozinho, vivi uma vida cheia. Muitas destas vidas persistem, mas nenhuma me completa, porque não a vivo toda. Vivo uma vida — vidas, interrompidas; e esse é o meu drama.
Não sei se já vos aconteceu acordar no corpo de outra pessoa; não sei dizer se quando ocupo uma das personalidades o dono se transfere para o meu anterior corpo, ou simplesmente se se anula, mas acredito que existe outro, outros eus, que vive — vivem — as minhas outras vidas, que me subsituem quando salto.
Tenho quarenta e dois anos e muitas das minhas vidas desapareceram com o tempo, enquanto algumas das personalidades persistiram. Creio-o, sem certezas, porque a maior parte das memórias desaparecem e quase apenas restam as emoções e os sentidos — sei quem (ainda) sou na habilidade de fazer uma outra coisa, um odor que se esvai, o sabor de uma sopa, coisas comezinhas, ou quando o coração já não sente a sua presença, como uma namorada que já não amamos.
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Um dia acordei no meio do nada, literalmente. Não existia nada à minha volta. Nada de nada, até onde podia ver e sentir. Nunca tinha experimentado tal situação: os meus pés não se apoiavam no chão, nem eu sabia onde era para cima e para baixo. De facto, nem sabia se existia cima e baixo, porque não sentia a gravidade. Era um pouco como estar dentro de água, num oceano imenso, ou no espaço, nada fazia sentido. Eu via, mas não via nada. A cor que me envolvia — porque a imagem mais próxima do que posso transmitir é uma cor — não era o negro do espaço ou o turquesa do mar, mas tão-só um branco. Seria talvez uma luz que me envolvia, sem fonte, numa cor indefinida. Não era uma névoa, não era água, não era um fluido: era o nada.
A minha cabeça rebentou num pânico indescritível: respirava, mas não respirava; andava, mas não andava; mexia-me e via as minhas mãos e as minhas pernas — a única coisa que realmente eu via era o meu corpo, até onde podia ver —, e sentia a minha respiração, mas apenas dentro de mim. Os meus gritos morreram na minha garganta e contorci-me convulsivamente, para concluir que era possível sentir dor, apenas a que eu me provocava. Pensei que tinha morrido: morrer era assim? Gritei, gritei até me doer a garganta, e bati-me apenas para me sentir vivo, mas acabei por me cansar não sei quanto tempo depois. Devo ter adormecido.
Tentei pensar onde estava. — Estaria algures no espaço? Numa outra dimensão? Teria realmente morrido? Ou simplesmente estaria a viver a vida de alguém num coma? Mas nada do que sentia me autorizava compreender. A minha estranha vida pregava-me uma partida — alguém se estaria a rir. Seria talvez o deus dos cristãos, ou Alá? — Alguns dizem que ele é o mesmo — o dos cristãos, o dos judeus, o dos muçulmanos, e outros acrescentam-lhe o ente criador do universo. Porque parece que tem de ter havido forçosamente alguém a criar o universo. E quem o criou a ele? — Ah, ele sempre existiu! E porque é que o universo não pode ter sempre existido? — Porque nada existe desde sempre, é a lei de Lavoisier e eles sabem. Bom, e então se nada existe desde sempre como é que Deus foi criado? — Deus não foi criado, sempre existiu, respondem os crentes. Hum. —Têm sempre boas respostas para não responder a nada e tudo se baseia afinal na fé. Vi há uns tempos um padreca afirmar que a prova de que Deus existe é que não é possível provar o contrário. É claro que a afirmação dá para tudo, até mesmo para o contrário, mas o padreca rejubilava!
Bom, ali o Lavoisier não parecia aplicar-se e para ali estava eu a filosofar — eu tinha muito tempo para pensar. Não sentia fome nem sede, portanto, se estivesse em coma estava a ser muito bem alimentado. Se estivesse morto, as minhas funções estariam já degradadas e não tardaria, os vermes dos intestinos começar-me-iam a comer — não me parecia. Experimentei suster a respiração — um dia em miúdo li sobre os pescadores de pérolas que mergulhavam por largos minutos e quis saber quanto tempo era capaz de estar sem respirar. Ao fim de algum tempo conseguia suster a respiração mais de um minuto. Comecei a contar — da única forma que me era possível: mil e um, mil e dois, mil e três… mil e trezentos — para concluir que me era indiferente respirar ou não respirar.
Algures esqueci-me de contar, vivia de novo apenas recordações: a memória traía-me. Segurava uma chávena de café. À minha volta homens e mulheres gritavam entusiasmados: ao fundo dois écrans enormes projectavam dois jogos de futebol em simultâneo e o Sporting e o Benfica (ou seria o Porto e o Guimarães?) e o Manchester qualquer coisa e o Real Madrid jogavam. O fumo tornava o ambiente irrespirável, mas ninguém parecia dar por isso. Cerrei os olhos com força para os limpar e ao abri-los vi os faróis do carro que conduzia projectados nas árvores e na estrada. A súbita transferência fez-me guinar o volante, mas segurei o carro. Era noite, conduzia há trezentos e tal quilómetros e estava aborrecido. Qualquer coisa me perturbava, mas ainda não sabia o que era. Via as árvores passar enquanto tentava perceber para onde ia, mas achava que estava de regresso a casa. Pensei em parar numa estação de serviço, mas estava fechada. Passei uma aldeia: dormia. Encostei ao fundo da aldeia e recostei-me para perceber quem era: o carro era o Skoda; então eu era o António. Donde vinha o António? — tentei recordar-me. Fechei os olhos e dormi também.
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Quando estamos no limbo temos muito tempo para pensar. Penso nas minhas vidas — algumas aparentaram ser mais persistentes, enquanto outras eram mais fugidias — e elas surgem-me com uma clareza que não sentia nos meus saltos entre vidas.
Imagens surgiam-me; momentos, instantes, da minha vida, dos pequenos momentos de felicidade. Vim à janela do nono andar de minha casa: era noite e as luzes dos carros eram apenas um zunido vago insistente — aquilo já tinha sido o escuro do campo, recordei, e voltei para o sofá e para a televisão — a Sofia já se tinha deitado, mas eu não tinha sono. Vi a minha namorada ocupada em qualquer coisa que não percebi, lembrei-me das duas rotinas em C++ que tinha escrito e que não estavam a correr dependuradas no Cobol e tentei mentalmente perceber porquê. Fechei os olhos e ouvi o marulhar das ondas embrulhado em vozes onde aqui e ali se distinguia uma criança mais sonora — a luz intensa da praia não me deixava ver.  Estava sentado em frente à secretária com cinquenta e quatro testes para ver e apenas um fim-de-semana para acabar — escolhi um disco: John Coltrane, «My Favorite Things». Fechei de novo os olhos, senti a mão fria da Mafalda que procurava a minha, olhei-lhe os olhos fechados e senti-lhe a pele quente nos lábios, o João que brincava ao nosso lado com a escavadora de plástico. Penso nas minhas vidas e não sei dizer se de facto elas existiram, como também não sei dizer quem eu realmente sou.     
Aquilo era o céu? — Não era o céu dos muçulmanos: faltavam-lhe as virgens. Para o céu dos cristãos faltava-lhe o grande portão e o São Pedro. E não fazia ideia do que seria o céu dos judeus. Ou os judeus não tinham céu? — Para as grandes pastagens dos índios americanos faltavam-lhe os bisontes. E para onde raio iam os gregos e os vikings quando morriam? —Valhala e o Olimpo eram as moradas dos deuses. E os mortais? Que lhes acontecia? Tinham «paraíso» ou «céu»?
Também podia estar no purgatório; também há o purgatório que é o limbo dos pequenos pecadores, ao que me lembro. Ou será apenas o limbo dos inocentes? Inocente? Pecador? — o pecado mais grave que eu carregava seria o pecado original, mas tinha sido cometido por outros. Seria, se eu fosse cristão. Os cristãos gostam de se culpabilizar e qualquer coisa serve, até os pecados dos outros; eu não sou masoquista. Tanta parvoíce sempre me deixa fora de mim, principalmente quando dito por pessoas que tenho por inteligentes. Mas há aqui qualquer falha que merece ser estudada, antropologicamente, socialmente, psicologicamente: provavelmente a banalização da culpa também autoriza novos pecados, e lá vão pecando e sossegando.
Se voltar à vida «normal» (se alguma coisa de normal há na minha vida), irei rever os meus conhecimentos de mitologia e das religiões. Também penso noutras religiões: o hinduísmo, o budismo, taoísmo, cientologia, vudu — mas pouco percebo de futebol e os meus pensamentos fugiram para outras paragens.
Paragens? — Eu não estava em lado nenhum. Aparentemente eu estava num hiato espácio-temporal (aquilo cheirava a Einstein). Ou dir-se-ia antes um intervalo entre vidas? Se aquilo fosse o céu, eu devia ter vestida uma túnica branca ou semelhante, mas tinha umas calças cinzentas, ténis e uma t-shirt. Não tinha relógio, nem nada nos bolsos. Estiquei a t-shirt para a frente e li: «Billabong». Devia estar a viver a vida do puto Ricardo — não podia ser, o Ricardo tinha crescido e já não usava t-shirts Billabong, pensei… E nessa altura nem dinheiro tinha para as comprar… As calças estavam um pouco largas, mas os ténis eram daqueles ténis de inverno, caros, de cabedal… Hum, as peças de roupa não pareciam condizer: pareciam pertencer a várias pessoas. Passei a mão pela cara — tinha feito a barba. Se estivesse por aqui muito tempo, talvez ela crescesse. Ou as unhas. Podia ser uma forma de contar o tempo… Se estivesse preso numa cela ou numa ilha deserta, eu podia fazer riscos na parede, mas ali não havia parede nem sol nem noite e a luz era igual em todo o lado.
Porque é que eu estava ali? Haveria alguma razão? Tinha feito alguma coisa que perturbasse as minhas vidas? — Não conseguia lembrar-me de nada: eu simplesmente tinha aparecido ali. Mas aquilo preocupava-me: eu ia ficar ali para sempre? E o que é que tinha causado este nada que agora experimentava?
Porque é que me tinha lembrado do Ricardo? — há muito tempo que o tinha perdido. Tocava bateria e sofria num crescimento atribulado. Ainda seria baterista de Jazz?— era bom que não, ou estaria a viver na miséria — ri-me. Ou tocava numa banda de rock? Rock indie ou rock’n’roll? — antes isso que acompanhar um seboso pimba qualquer. Pior não seria — he-he — pior ainda seria uma dessas pitas benzocas que cantam o «fado novo», Xuxa qualquer coisa, a Nhinhinha ou a Titinha Moira. Ria-me daquelas vozes afectadas: aquilo tresandava a mofo, era o fado, a desgraça de ser português, pequenino e triste — mas tinha pneus recauchutados! A ideia parva fez-me rir histericamente e despertei para o meu nada de novo. Recomecei a contar: mil e duzentos e um… onde é que eu me tinha perdido? Mil e quinhentos? E porque é que eu estava a contar? — Ah, sustinha a respiração, mas não valia a pena.  
As memórias surgiam-me em catadupa. As minhas vidas misturavam-se. Não sei se dormia ou se estava acordado. Algumas recordações inundavam-me mais intensas do que outras, depois uma apatia assaltava-me e a minha mente dissolvia-se no limbo em que o meu corpo vivia.
Por ali fiquei, horas? dias? anos? — como não tinha referências o tempo não fazia sentido, mas o meu corpo não o acusava também. A memória traía-me, o cérebro traía-me e não sabia dizer o que era a realidade e o sonho. Por ali fiquei uma eternidade até que um dia acreditei que o Alberto (Einstein) me tinha perdoado e acordado finalmente no meu escritório, em frente ao computador e com uma pilha de papéis por registar.
O Álvaro (o meu sócio da empresa) entrou: — Pensei que tinhas saído. Estás branco. Estás a sentir-te bem?
Não estava. Levantei-me, ajustei a gravata e já não fui trabalhar mais nesse dia. Sentei-me no café e anotei tudo o que me recordava do hiato que tinha vivido. Enchi o bloco de notas e pensei que precisava de um caderno mais eficiente. O fumo e o barulho do café incomodava-me. Pisquei os olhos — tinha regressado ao limbo: alguma vez tinha saído? Olhei em volta: o nada insistia, nenhum barulho para além da minha respiração, nenhum sabor para além da minha saliva, nenhuma luz, nada. — Se não havia nada, eu existia? Pensei em Descartes: penso, logo existo — mas quem era eu?  
Pisquei de novo — eu era um contabilista com uma vida vulgar e metódica. Desde a escola que eu tinha o hábito de anotar tudo, desde as minhas despesas aos meus poemas de adolescente, às actas das reuniões. Anotava o preço dos cafés e o nome dos filmes e os amigos que comigo tinham ido ao cinema, e guardava os cadernos. Tinha um armário de gavetas repleto de cadernos com trinta anos onde me inquiria também das minhas vidas e conservava o pouco das memórias das minhas outras vidas que conseguia recordar.
Caminhava cautelosamente para minha casa; com a cautela de quem não sabe se realmente está ali — parecia-me viver um sonho dentro de outro sonho. Os meus passos soavam ocos e as luzes dos carros eram baças como aos olhos de um míope; alguma coisa me atormentava. Encostei-me a um prédio, mas a parede fugiu-me e tropecei: eu não estava ali, realmente; senti os braços soltos da ausência de gravidade - tinha regressado ao limbo!
Fechei os olhos de novo: conduzia o carro às voltas no quarteirão, a Mariana ia-me sugerindo lugares para estacionar e eu aborrecia-me. A memória traía-me de novo: eu tinha-me divorciado da Mariana há anos! A memória insistia: contornei de novo o quarteirão, deixei a Mariana e o João em casa e encontrei um lugar mais à frente. Mas aquela não era a nossa casa, e eu não sabia onde os tinha deixado. E seria o João? — Parecia-me o Nuno! —confundia também os filhos, as realidades enredavam-se, a minha cabeça estalava; voltei de novo ao limbo, suava.
Soletrei: Dubito, ergo cogito, ergo sum. Eu duvidava, sim; aquela vida não podia existir. Não fazia sentido. Ou melhor, aquelas vidas não podiam existir. Ou seria antes: aquelas não vidas? Eu existia? Se não existisse, não pensava — era a pescadinha de rabo na boca onde estava emaranhado.
Olhei as minhas mãos — pareciam-me descoloridas; seria daquela luz? Notei que as unhas não tinham ainda crescido: ou eu estava num intervalo do tempo ou tinha passado ainda muito pouco. Talvez estivesse ali há apenas algumas horas. — ou minutos. Pensava, pensava: as recordações atropelavam a imaginação, mas talvez tivessem passado apenas minutos. Os meus braços pareciam ter perdido a cor também. Mas de que cor era eu? Era moreno ou louro? Quem era eu afinal no limbo onde me encontrava?
Não conseguia ver e passei as mãos pelo cabelo: não era careca, tinha cabelo em toda a cabeça embora não muito forte. Não me pareceu encaracolado, ou pelo menos não muito. Arranquei um pêlo — pareceu-me preto, ou castanho-escuro. Depois lembrei-me e desci as calças para ver a cor da pubis: era escura. Pronto, não era louro. —Ficava na mesma — em nenhuma das minhas vidas, que me recordasse, eu era louro…
Mas notei que não tinha vestido nada por debaixo das calças: nada, boxers, cuecas, trousses, slips, nada! — Por isso é que eu andava com uma comichão danada nos testículos; cocei-me furiosamente.
E então lembrei-me de ver as meias também — eram pretas; nenhuma característica distintiva. Olhei melhor e reparei que não eram iguais! —Eram de tamanhos diferentes e o desenho também não era igual! Que raio! Descalcei os ténis com cuidado para ver melhor. Com cuidado: não queria ficar descalço e não sabia o que aconteceria se me descalçasse. Segurei os atacadores com cuidado e o ténis pareceu levitar. Fazia sentido, pensei. Levitava, como eu. Bem, eu não sei se levitava — eu apenas existia. Existia porque pensava? — Lá voltava eu ao Descartes.
Sem largar os atacadores dei um piparote ao ténis e ele rodou — era engraçado. Tinha medo de largar o ténis, porque não queria ter frio nos pés (qual era o meu eu que não gostava de ter frio nos pés? — não me recordava) e tinha medo que ele desaparecesse no nada como tudo o resto. Voltei a calçar o ténis.
Reparei que não tinha frio nos pés. Nem no corpo. Não tinha frio nem calor, não sentia uma aragem que fosse — um diáfano zéfiro que enfunasse as velas do meu barco —, não sentia humidade no ar, nem bem sentia o ar, para dizer a verdade. Respirava, mas não respirava, vivia de memórias e de sonhos. E a cada momento parecia ganhar as memórias de todas as vidas que tinha vivido e que tinha sempre dificuldade em recordar.
Pensei como era ter frio e ter calor, e lembrei-me de quando o António se tinha queimado no ferro. Ri-me da primeira experiência com o ferro de engomar: depois das recomendações da minha mãe, de ler as instruções do ferro com muito cuidado e de anotar todas as etiquetas de todas as peças de roupa, tinha-me queimado antes mesmo de começar. Virei a mão — a cicatriz não estava lá: não era o António.      
E tive saudades da Ana Rita: de estar debaixo dos cobertores e sentir-lhe o corpo doce e quente. Choraminguei. Quis esconder-me debaixo dos cobertores, mas não tinha por onde. Contorci-me e esbracejava, mas os meus gritos morriam na minha boca. Chorava, mas as minhas lágrimas não caíam no chão que não existia. Desesperei. Tive saudades da minha felicidade — oh, eu fui feliz — eu fui feliz muitas vezes! — No caos da minha vida aprendi a apreciar cada momento de felicidade e a espremê-lo como a uma laranja.
Tive saudades de cada momento da minha vida, de cada família, de cada mulher, de cada filho e de cada amigo que tinha passado pela minha vida. Tive saudades das minhas vidas, dos meus eus, com a peculiar vida que tinha aprendido a viver. — Quem estaria a viver as minhas vidas? — Ou eu simplesmente tinha morrido — ou desaparecido? — Se eu tivesse morrido, haveria um corpo algures — ou vários? — e os meus pais — lembrei-me dos meus pais (os pais do José) que estavam vivos — iriam chorar, e iriam fazer uma cerimónia, e cremar-me ou enterrar-me; mas depois iam ao cemitério chorar qualquer coisa. Mas se eu simplesmente desaparecesse? — A mãe do António ia sofrer muito também, coitada, sem filho, sem netos, sozinha.
Ia revendo um a um os pais, os irmãos, depois as mulheres e os filhos, os amigos, o passado, o presente; estava a dar em doido: — Não! — gritei — e os meus gritos sovam estranhos, ressoando para dentro da minha cabeça, cortando o impacto do grito e fazendo-me parar um pouco antes de continuar: — Não! Antes que o meu outro eu continue a viver e a amar todos esses que me fizeram feliz. — Os rostos assaltavam-me desordenadamente uns após outros, após outros, repetindo-se, sucedendo-se, invadindo-me.     
As imagens pararam nos meus beagle. Passeava o Farrusco e o Piloto (nomes fictícios) — o Farrusco era mais carinhoso, o Piloto mais traquinas — canteiro a canteiro, depois regressava a casa e sentava-me no sofá, o Farrusco ao meu lado, o Piloto no tapete, os meus filhos discutiam comigo a posse do comando, a Ana Rita dormitava invariavelmente — um dia o Nuno pôs-lhe um cigarro na boca e tirou uma fotografia (que ainda guardo) e ela acordou rezingona: happy days!
A felicidade desses dias idos atormentava-me e eu choramingava enquanto os meus olhos se turvavam a olhar o nada. — Tinha saudades dos meus cães, tinha saudades dos meus filhos, da Ana Rita com a cabeça a cair de sono e a acordar rabugenta, saudades de não fazer nada e daquela felicidade das coisas pequenas.
Os devaneios da memória cansavam-me. Fechei os olhos e devo ter adormecido.
Acordei a brincar com os sapatos. Tinha-me descalçado e rodopiava os ténis, sem largar os atacadores. Tinha-os atado cautelosamente e tentava construir uma hélice — funcionava, mas não produzia qualquer vento, uma pequena brisa que fosse.
Brincava, e evoquei as memórias de infância, que agora pareciam despontar com mais facilidade.
Hélices eram mais coisa do Rodrigo, que sempre tinha tido jeito para engenhocas, mas o Luís gostava mais de futebol — que seria feito do Luís?   
Vi-me outra vez na escola: ah, o Luís era bom à baliza. Não tinha medo de se atirar para o chão, por vezes com consequências não desejadas; e talvez por isso com quinze anos quis praticar judo para aprender a cair. Fui bom no judo durante alguns anos até que fui obrigado a desistir: o treino estava a tornar-se demasiado exigente e eu era solicitado noutras áreas. A área principal era a Maria, a minha namorada. Apaixonei-me pela Maria desesperadamente e sofri até que a perdi. Ela tinha sido a minha namorada por apenas pouco tempo — dois meses, três meses? — mas eu era demasiado jovem e ela era uma mulher, já, com dezasseis anos.
Estranhamente — as coisas tornavam-se evidentes agora, tantos anos volvidos — eu tinha voltado a namorar a Maria na pele do Paulo, mas o nosso amor durou também apenas algum tempo e eu voltei a sofrer. Sofri no corpo do Paulo pelo Paulo e pelo Luís. Era estranho; era muito estranho. Nunca falámos disso, mas fizemo-nos amigos e partilhámos do mesmo amor. Que seria feito do Paulo e do Luís? — perdi-os pouco depois e nunca mais soube deles. O Luís terá voltado ao judo e ao futebol? — E o Paulo? Terá reconquistado a Maria?  
Ah, o Rodrigo: o Rodrigo sabia coisas e era metido com ele próprio. Apesar de ter dois irmãos era um tipo solitário na adolescência e ainda hoje é um caladão. Está aqui comigo, ou melhor é um de mim: rodopiei os ténis — se conseguisse ligar aquilo a um dínamo, haveria de ter electricidade! A ideia fez-me rir — para que queria eu electricidade?
Que é feito dos meus irmãos, a Ana e o Raul? — Que será deles, e dos meus pais, se eu simplesmente desaparecer? E da Cristina, a minha mulher? Será que continua a viver com o meu outro eu — tive ciúmes. Ou eu morri? —Pela Cristina, eu esperava que ela tivesse continuado a vida, sem sobressaltos. E os meus alunos? — Tinha sido arrancado do meu escritório no meio da correcção dos testes de fim de período. Será que o meu alter ego ainda ira a tempo de os corrigir? — Tinha curiosidade em saber como é que eles se tinham desenvencilhado — não lhes tinha facilitado a vida…
A última música que tinha ouvido tinha-me ficado na cabeça. O saxofone do Coltrane cantava. Cantarolei: Every Time We Say Goodbye… 
Por alguma razão a maior parte dos meus alunos preferia a química, embora houvesse alguns muito bons na compreensão da matéria das forças e do movimento. O som e o magnetismo era popular, mas com fracos resultados. Mas parecia haver qualquer problema na ideia de espaço e nas forças que se exerciam sobre os objectos. A própria geometria espacial parecia-lhes interdita; não iam sair dali arquitectos 
Every Time We Say Goodbye, I die a little, I wonder why a little… 
Arquitectos; o Grande Arquitecto era eu. O Grande Arquitecto era a minha alcunha na faculdade: tinha-me evidenciado logo no primeiro ano, e acabei o curso com um louvor. Com alguma imprudência, alguns anos depois do estágio formei um atelier com dois colegas e escolhemos como logotipo o esquadro e o compasso, o que nos valeu a fama de maçons, que não somos.
Não que me servisse de grande coisa naquele nada em que não havia pontos ou linhas ou sequer horizonte: apenas aquele vazio em toda a volta. Olhava o nada: não olhava: como é que se olha o nada? Os meus olhos eram os mesmos que tinham sido arrancados ao olhar da serpente de carros à frente da minha casa, do nono andar. De dia eu tinha uma perspectiva vasta, mas à noite o horizonte era subjugado pelas luzes vermelhas e brancas cruzando-se em sentidos contrários.
Tinha calçado de novo os ténis e rodopiado, acocorado, acreditava, sem pontos de referência. Fechei os olhos: a Sofia já teria acordado?
Abri os olhos de novo e vi umas luzes vermelhas a saltar pelos ares à minha frente e travei a fundo. Era uma estrada escura estreita, com árvores dos dois lados, onde dificilmente dois carros se poderiam cruzar. Vi o carro à minha frente derrapar numa curva fechada enquanto travava, depois foi de encontro a uma berma subida e capotou. Travei em cima dele, abri a porta e corri para socorrer o condutor que era a única pessoa que estava no carro. Consegui abrir a porta e soltar o cinto. Puxei-o para fora e afastei-me um pouco — não fosse o carro explodir — para a frente dos faróis do meu carro. Ainda comecei a perguntar: —Você está bem… — mas saltei para trás: o rosto dele era igual ao meu, a roupa era igual à minha! Olhei o carro, de rodas para o ar: era um Skoda cinzento, da mesma cor, igual ao meu! E tinha a mesma matrícula! Não podia ser! — Era eu!
Estava paralisado, sem saber o que fazer. Comecei a abaná-lo: —Quem é você? — Está bem? — É melhor chamar uma ambulância! Mas quem é você? — Agarrei-o de novo, para lhe falar. E de repente — bum! — nesse mesmo instante eu tinha vindo parar ao limbo!
O mistério começava enfim a dissolver-se: inadvertidamente o António tinha tocado o seu outro eu, o que tinha provocado uma colisão do género matéria / anti-matéria, que tinha provocado o hiato no espaço-tempo — definitivamente einsteiniano, pensei.
O Rodrigo (o professor de ciências) sentenciava: — O que te aconteceu, não pode ter acontecido. Assim como dois átomos não podem ocupar o mesmo espaço, eles não podem encontrar-se em dois locais diferentes num dado momento. Mas na física quântica, isso é possível, embora o fenómeno tenha consequências dificilmente previsíveis. A ciência procura lidar com estes acidentes, controlando a posição dos átomos e num futuro próximo a transmissão de matéria deverá ser possível. Hoje já é possível enviar fotões num espaço descontínuo, instantaneamente.
Estávamos a ficar aborrecidos: aparentemente tínhamos desvendado o acidente que tinha provocado a nossa situação; mas a explicação do Rodrigo não convencia – nem percebíamos o que ele estava a dizer e podia estar apenas a fazer trocadilhos.
O José explodiu: — Estás a dizer disparates, já disseste duas coisas contrárias. Tu não percebes nada de física quântica…
E o José continuava, enquanto o Rodrigo amuava: - E então quando é que saímos daqui? Tenho de ir buscar o João à escola e a Mafalda está à minha espera para jantar…
Começámos todos a falar ao mesmo tempo, mas ninguém ouvia ninguém. Às tantas o Francisco virou-se de novo para o Rodrigo: — Ok. Já percebemos que dois átomos não podem ocupar o mesmo espaço, mas como é que viemos aqui parar todos? E porque é que eu estou vestido como um palhaço?
O Rui gracejou:
— O idiota que nos pôs neste filme, podia ao menos ter-nos vestido umas cuecas; estou com uma comichão danada nos tomates desde que estou aqui.
— A culpa é do gajo do guarda-roupa —, ouviu-se.
— E não há livro de reclamações? É obrigatório! — O Rui divertia-se.
— Sim, queremos o livro de reclamações; a culpa é do gajo do guarda-roupa. — Ouviu-se um coro de gargalhadas que foi esmorecendo até que se fez silêncio.
Ouviu-se de novo a voz do Rui, quase sumido:
— Tenho saudades da Sofia.
— E eu tenho saudades da Ana Rita. — O Francisco concordava. — E do Nuno e do Pedro e da Mariana. E dos meus cães. E de ver televisão.
— Quero a minha vida de volta; quero a Mafalda e quero ir buscar o João à escola —, choramingou o José.
- Quero a minha mãe - ouviu-se fungar. — Funguei.  
Fez-se um interminável silêncio. Não era possível ver nada à volta, porque não havia nada para ver, mas também porque os olhos estavam marejados de água e sal.
Estava esgotado, a minha cabeça rebentava, tinha comichão, uma lenta letargia foi-se apossando de mim.
Comecei descalçar-me de novo. Desapertei um ténis e peguei-lhe pelo atacador. Mas nesse momento quis coçar-me e deixei-o escapar da mão. Tentei agarrá-lo, mas ele foi-se afastando lentamente e foi-se desfazendo como se os seus átomos se fossem dispersando, dissipando no nada.
Fiquei a olhá-lo, aturdido; depois olhei o meu pé: não tinha frio. Nem calor. Não tinha nada.



(Revisão de António Lampreia)