quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Once Upon a Time in the West - cinema no CCB


O CCB tem programada uma série de sessões de clássicos de cinema para o Grande Auditório, à média de uma por mês. Já passou o E tudo o vento levou e o Mary Poppins e estão agendadas coisas como o Aconteceu no Oeste, o Spartacus do Kubrick, o Breakfast at Tiffany´s de Blake Edwards e o West Side Story do Robert Wise.
Ainda, de 10 a 21 de Abril, um ciclo dedicado a Hyeronimus Bosch (que inclui outros espectáculos) leva ao palco, aliás ecran, do
Pequeno Auditório, sete filmes - tantos quantos os pecados capitais: A festa de Babette (Gabriel Axel); Eyes Wide Shut (Stanley Kubrick); La Haine (Mathieu Kassovitz); What Ever Happened to Baby Jane (Robert Aldrich); As férias do Sr. Hulot (Tati); O quarto mandamento (The Magnificent Ambersons) (Orson Welles); O Lobo de Wall Street (Scorcese); e ainda o documentário El Bosco, El Jardín de los Sueños de José Luis López-Linares a 15 de Abril; este último no Grande Auditório.
Mas o Aconteceu no Oeste (Once Upon a Time in the West,1968) é o mais célebre dos Sergio Leone e conta com Claudia Cardinale, Charles Bronson e Henry Fonda no elenco. Ah, e Ennio Morricone na música. É já no próximo domingo, 25 de Fevereiro às 16.00. 
Eu gosto de coboiadas. Esta vai ter um ecran à antiga, dos grandes.   



 

Cinema no CCB:

  • Aconteceu no Oeste, Sergio Leone - 25 Fevereiro 
  • Spartacus, Stanley Kubrick - 1 de Abril
  • Boneca de luxo, Blake Edwards - 31 Maio
  • West Side Story, Robert Wise - 17 Junho
  •  
Ciclo Hyeronimus Bosch (Pequeno Auditório) Os sete pecados capitais:
  • A gula: A festa de Babette (Gabriel Axel) - 10 de Abril 
  • A luxúria: Eyes Wide Shut (Stanley Kubrick) - 12 de Abril
  • A ira: O ódio (Mathieu Kassovitz) - 14 Abril
  • A inveja: Que teria acontecido a Baby Jane (Robert Aldrich) - 16 de Abril
  • A preguiça: As férias do Sr. Hulot (Jacques Tati) - 18 de Abril
  • A soberba: O quarto mandamento (Orson Welles) - 20 Abril
  • A avareza: O Lobo de Wall Street (Scorcese) - 22 de Abril
  • El Bosco, El Jardín de los Sueños de José Luis López-Linares (documentário )- 15 de Abril (Grande Auditório)


segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Avant La Lettre


A primeira imagem que me veio à cabeça quando escrevi o post anterior (Abalroado) foi o piano selvagem do Fred. Creio que perceberão porquê.

Para quem não saiba, o Fred (1931 – 2013), foi um dos seus mais criativos autores da BD, da escola franco-belga, com um lugar de relevo na História da BD.
O Le Piano Sauvage foi o segundo álbum publicado das aventuras do jovem Philemon (e do burro Anatole, do incrédulo Hector, o pai, o tio Félicien - o dono da luneta -, e todos os outros personagens fantásticos), logo a seguir ao  Le Naufragé du "A".

As aventuras de Philemon decorrem nas letras do Oceano Atlântico de um globo terrestre, para onde o jovem é enviado através da luneta invertida do tio.
Não vos conto mais mas, quem tiver curiosidade, nada como espreitar (já que os livros não existem no mercado nacional) aqui, na revista Pilote de 1968, onde Le Piano Sauvage foi originariamente publicado.


Muito pouco foi publicado (ou distribuído) em Portugal do Fred mas, no final de Dezembro, encontrei por cá (eu não conhecia) o Avant La Lettre que, embora publicado bastante mais tarde, se pretende situar como o livro 0 da colecção (antes pois do Le Naufragé du "A").  
O desenho não teria atingido ainda a sua forma acabada, mas em tudo mais é o mesmo universo delirante, o mesmo irredutível surrealismo.
É um Fred, e para um Fred nada menos que cinco estrelas.
E foi a minha prenda de natal. 



Avant La Lettre, Fred, 1978 (reedição de 2013)



sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Abalroado



Hoje fui abalroado pela notícia de que um jovem de onze anos tinha sido multado em 500€ por… tocar piano.

A notícia da televisão relatava que o jovem, um prodígio do piano, treinava horas a fio em sua casa, incomodando uma vizinha, que se queixou à polícia. A polícia foi a casa do jovem e. confirmando a situação, advertiu o jovem de que teria de deixar de tocar o piano. Perante a recusa do jovem e da mãe, a polícia levantou-lhe um auto pela transgressão, tendo a Câmara de Sintra multado o jovem em quinhentos e picos euros. 

O agente da polícia entrevistado explicava a situação com visível dificuldade, aparentemente apercebido do ridículo da situação, mas inflexível na determinação: lei era lei.

Será mesmo provável que o jovem toque piano muitas horas todos os dias e aborreça os vizinhos. Pelo depoimento dos professores, ele seria mesmo um «génio»; mas mesmo um génio tem de praticar o instrumento muitas horas por dia.

No nosso quotidiano em sociedade somos perturbados pelo trânsito automóvel, pelos aviões, pelo barulho dos rádios e das televisões, as discussões dos vizinhos, o sino das igrejas, o ladrar dos cães dos quintais ou mesmo as crianças a brincar (e claro que nada pode ser mais irritante que um jovem a fazer escalas num piano cinco horas por dias). Mas também, enfim, pelo simples facto de existirmos, somos perturbados pela chuva e pelo sol e pelo vento e pelas doenças que temos ou que inventamos. (Proíba-se, pois, o mau tempo.) E claro que importunamos.(Por vezes com o nosso silêncio!!)

Será óbvio para qualquer indivíduo razoável que a queixosa é apenas uma pessoa perturbada ou, sei lá, uma velhota solitária com défice de atenção, mas, como tal, necessita de ajuda, e ela não pode ser culpada da sua perturbação. Mas já a polícia, mas já a cidade, mas já as leis: eles são culpados, sim, da imbecilidade e da tristeza. Porque proibir a música é proibir a vida. A música para aquele jovem (como o deveria ser para todos nós) é sinónimo de respirar. Proíba-se talvez o respirar?

Num qualquer país normal, o polícia, a cidade e as leis saberiam que o som de um piano não é ruído, que o piano produz música (ademais o jovem está a aprender música clássica e até já ganhou vários prémios internacionais), que o que o piano incomoda é o que a vida dos outros sempre nos incomoda.

Ao patético da situação acresce que não estamos a falar de um instrumento electrificado ou de um qualquer instrumento de índice decibélico elevado. Acresce ao ridículo que um piano faz menos ruído (ruído: como o som do piano foi referido) que o catarro do vizinho do terceiro direito da queixosa.

Num outro país qualquer que tivesse música; num país onde os nossos governantes soubessem da importância da música na vida; num outro país onde o senhor polícia, o senhor presidente da câmara e os senhores legisladores soubessem que a música deveria fazer parte da vida dos cidadãos, isto não poderia acontecer. Num país onde as pessoas aprendessem música de pequeninos, onde a música fosse acarinhada, onde a música fosse promovida, onde a música fizesse parte da cultura, a queixa da senhora seria ignorada. 

Claro que vivemos num país triste, claro que estamos em Portugal, onde a música oficial é o fado, onde a quase totalidade da população não sabe música e não toca nenhum instrumento, e onde os pimbas nascem como cogumelos. Claro que estamos em Portugal onde quem quer aprender música tem que recorrer ao ensino particular; quer dizer, tem de pagar para aprender o que a sociedade (e o Estado) tem o dever de promover, a par da língua, a par da matemática e das ciências, e da história e da filosofia, onde a prática do desporto é o futebol…

O Estado tem obrigação de acarinhar o ensino da música, e tem a obrigação de patrocinar a música das escolas particulares, de patrocinar as filarmónicas, os coros, as bandas populares, e as bandas rock e as escolas clássicas e o Jazz. O Estado tem a obrigação de não relegar a música para os concursos da televisão, o Estado (que somos nós) tem a obrigação de promover a música.

Não sei quantas vezes eu escrevi já que Portugal é um país sem música. Se fosse necessária a comprovação, ela está aqui: um jovem de onze anos foi multado pelo Estado, por tocar piano.

Está tudo dito: miséria de país onde a música é proibida!

Hoje fui abalroado!






If I'm going to Hell, I'm going there playing the piano.  
Jerry Lee Lewis

 



(desenho por TomAkaVeto)



domingo, 7 de janeiro de 2018

Durrell e Portugal


...
E pontualmente, enquanto os anos se sucediam no calendário e ele mudava de lugares, a imagem de Leila era projectada com as cores e as experiêncas dos países que passavam diante dele: Japão constelado de cerejeiras, Lima dos narises aquilinos, Portugal melancólico e insípido, Helsínquia afogada em neve.
...

Mountolive (Quarteto de Alexandria), Lawrence Durrell, 1956 


é o fado, meu bem, é o fado...



quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

São Jorge




And the Oscar goes to...

Não vai, mas merecia.
São Jorge é um belíssimo filme - ele foi mesmo o melhor que vi este ano -, com tudo: uma excelente história, um excelente guião, uma excelente fotografia - difícil, com muitos ambientes nocturnos - , um excelente som, uma excelente direcção de actores, um naipe de actores brilhantes, a maioria dos quais amadores ou mesmo «gente
do povo», um actor principal fantástico - Nuno Lopes, e uma também muito boa actriz secundária (?) - Mariana Nunes, montagem correcta para um filme que nunca sai, nem pretende sair, de pé na construção de uma narrativa linear.
A observar talvez o desenho mais frágil de alguns personagens secundários, o excessivamente simpático do Nuno Lopes, ou a explicação demasiado simplista para a situação sócio-económica dos personagens (e isso levaria a uma conversa interessante), mas nada que estrague o filme. 
Vale a pena ver, ou rever. Grande filme.
Parabéns ao Marco Martins, parabéns ao Nuno Lopes, parabéns à Mariana Nunes, parabéns a todos os que fizeram o filme.

O meu Oscar vai para o São Jorge.


São Jorge, Marco Martins, 2017